na sexta, quando estava indo encontrar com catarina na martins fontes (a rua), duas velhinhas foram atropeladas na minha frente, ali na consolação.
nunca vou esquecer o barulho do impacto, barulho de corpo quebrando.
eu e meu longo vestido cor-de-rosa e meu batom vermelho correram na direção delas a tempo de não deixar ninguém tocar nelas, e dar as mãos, e avisar que tudo ia ficar bem, e ligar para o samu.
samu avisado.
diz que não pode dormir quando bate a cabeça, né? então abaixei para conversar com elas (enquanto o motorista desceu com a porra do carro, gritando com as velhinhas, enquanto mais dois ou três cafuçus queriam linxar o motorista. mas a maioria, claro, só ficava parada ao redor olhando com cara de buceta sem fazer nada).
elas eram chilenas. mercedes e olímpia. 87 e 88 anos. lúcidas na vida e lúcidas naquela hora. falaram de pinochet, do terremoto, ai que dolor, sale sangre de mi cabeza? (sim, saía de montão, e meu vestido, indo de rosa a vermelho, foi mostrando a ela o que eu não quis contar). e eu, de mãos dadas com uma dela, ia sentindo o polegar dela nas costas da minha mão, indo para a frente e para trás, como alguém que, mesmo naquela situação, ainda tem ternura para fazer carinho.
chegou o samu.
fui com elas até a santa casa porque ninguém falava nem entendia espanhol e alguém precisa traduzir o que diziam. e encontrar os parentes...
me deixe com meu drama: parece que eu estudei espanhol estes anos todos para isso.
§
saí de lá quando as duas filhas foram contactadas e uma delas tinha chegado. disseram que estava ótimas, só com alguns cortes, e que provavelmente seriam liberadas dali a algumas horas.
peguei o telefone de todo mundo. mas estou com medo do desfecho. medo dessas surpresas da vida, da f1000 do destino descendo descontrolada a consolação e tirando você do rumo. o pão quentinho na sacola. elas estavam voltando da padaria.
como uma noite, uma festa em que toda sua vida muda.
não quero ligar, porque não sei se quero saber.
falei para armin: "não consigo acreditar que a vida é dolorosa até o último segundo".
ele nem respondeu.